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Quem está torcendo contra Bolsonaro?

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“Se você torce para seu país dar errado você é um imbecil”. Essa frase viralizou na internet e está vinculada a muitas publicações em defesa do governo Bolsonaro. Mas na medida em que as pessoas a publicam, a gente pergunta se há quem torça para o país dar errado de fato. A oposição talvez? Não sei, mas boa parte dela se inclinada ao “quanto pior melhor” esperando que o governo se desencaminhe na gestão pública. Eles estão na torcida. Acontece que, efetivamente só estão na torcida mesmo. Quem está agindo para instauração de uma autocrise são pessoas do próprio governo. Algumas vezes de forma involuntária e outras vezes por burrice mesmo. E você há de convir comigo.

 

          O escritor Olavo de Carvalho e os filhos do presidente Jair Bolsonaro abriram “guerra” contra os militares. Esses mesmos militares que são em tese a força da base aliada, a força nos ministérios e a força moral contra a corrupção. Ora, pouco tempo atrás na paralisação dos caminhoneiros, antes das eleições 2018, a pauta de reivindicações oscilava entre a baixa nos preços ‘dos’ combustíveis (não só do Diesel) e no interesse de intervenção militar. Isso mesmo! Queriam intervenção dos militares. (Destaque para a provocação do deputado federal Eduardo Bolsonaro, que alegou na ocasião que bastava um cabo e um soldado para fechar o STF).  


          Quer dizer, no governo de um presidente ex-capitão do Exército Brasileiro, com vice-presidente general, os militares assumem um papel de heróis e vilões? Quem está certo e quem está errado? Os filhos do Bolsonaro e Olavo de Carvalho ou os militares? 
Se os militares estão errados, qual a razão de estarem no governo? Se não estão errados, qual a razão de tamanho ataque e desgaste? 
Quem está fazendo dar errado no país é quem está torcendo contra o atual governo ou quem está agindo para sua autodesmoralização? As definições de “torcer” e “agir” são claramente compreensíveis.

 

          Não bastasse isso, o próprio presidente dá declarações de um acordo que havia feito com o então juiz Sérgio Moro para indicá-lo ao Supremo Tribunal Federal e que iria honrar esse compromisso. O Moro por sua vez vem a público e desmente, dizendo que não fez compromisso algum. Que contraditório, não? Se aceitar a indicação à Suprema Corte provará que o presidente estava certo e ele mentindo, além do que torna possível a discussão da moralidade na situação em que ele na condição de juiz julgou e legalmente impossibilitou a candidatura de um rival de seu atual chefe de governo. Soaria muito como recompensa (se é que a oferta já não o seja). Se ele não aceitar, deixará o presidente impossibilitado de honrar com o compromisso ou questionável quanto a verdade da indicação. 

 

          Se fôssemos dizer de forma bem simplória, a oposição não precisa nem empregar esforço para torcer contra, uma vez que inúmeras tomadas de decisões do governo direcionam na contramão da coerência. É um recuo atrás do outro e quando não recuam, mantém decisões estapafúrdias, como por exemplo, ao passo que “contingenciam” recursos da Educação, anistiam partidos de dívidas. Mas é preciso reconhecer que o Bolsonaro sempre declarou sua imperícia com gestão pública, ao desconhecimento com a economia, ainda que tenha exercido o mandato de deputado federal por quase 30 anos. E não quero entrar no mérito de sua coleção de declarações infelizes feitas durante toda sua ascensão na internet, desde os conflitos com Maria do Rosário, com o Kit Gay, que inclusive mentiu em rede nacional sobre a suposta distribuição, bem como diversos conflitos com Jean Wyllys. Aliás, se há algo de expressivo na carreira do Bolsonaro em todo esse tempo são tão somente essas desavenças, pois enxergar resultados construtivos para o interesse público nesse período, somente com auxílio de uma lupa. O que se viu em campanha como projeto de governo foi a propagação de soluções através de frases de efeito, que são agradáveis de ouvir, mas não expressam em nada a capacidade de tornar possível, não estabelece um critério e muito menos dá clareza de um projeto nacional de desenvolvimento.

 

          A Janaína Paschoal, deputada eleita pelo PSL, sendo da base aliada, deu declarações de que o governo precisa parar de fazer drama e ir trabalhar. Não foi a oposição quem disse. Infelizmente, a patrulha que cerca o presidente me parece não estar habituada com ideias divergentes, daí partindo do próprio partido, é o estopim curto suficiente para explodir uma bomba. Em todas as explosões dessas no campo da própria situação, o clima vai ficando cada vez mais quente e a fumaça vai deixando o ambiente mais turvo, de forma que a incapacidade do presidente pacificar os próprios conflitos tem sido pretexto para alimentar o discurso de que os que estão do outro lado na imprensa, nas classes universitárias, na oposição inteira, que querem ver o circo pegar fogo.

 

          O MBL- Movimento Brasil Livre- que apoiou o presidente no 2º turno, muito mais por força do antipetismo, já dá indícios de que vão romper com a já frágil aliança. Kim Kataguiri, deputado federal líder do movimento, reclama de ataques de integrantes do próprio governo por conta de suas críticas ao modo de governar do presidente: “Estão me chamando de comunista (...). Todo mundo que se posiciona contrário é comunista. Quem discorda do Bolsonaro é comunista. Essa é a definição histórica de comunismo, discordar do Bolsonaro. É um discurso do Olavo, demonizar qualquer pessoa que discorde do discurso dele.” Kim aproveitou para alfinetar Olavo de Carvalho, amigo do presidente e crítico dos militares. Que balbúrdia!

 

          Como se não fosse suficiente os desentendimentos, o deputado Luciano Bivar (PE), presidente nacional do partido PSL, de Jair Bolsonaro, declarou que as manifestações pró-Bolsonaro convocadas para domingo (26) são sem sentido. Será se ele está torcendo contra ou está agindo contra? Seria oposição ao próprio governo ou lucidez? Seria um imbecil que está contra seu país? Quem está torcendo contra, afinal?

 

Por: Thiago Augusto
Servidor Público Municipal, acadêmico e escritor nas horas vagas