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Discutindo o que não se discute

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      Há quem diga que religião e política não se discutem, embora seja discutido o tempo todo nas redes sociais e não apenas em programas de televisão. Isso faz parte da liberdade de expressão e da afirmação das convicções políticas, filosóficas e religiosas, das quais ninguém pode ser privado de direito por exercê-las.

 

      Um fato recente que inflamou essa discussão foi o episódio ocorrido no último carnaval, no desfile da escola de samba Gaviões da Fiel, que na ocasião fizeram uma encenação de um duelo entre Jesus e Satanás. Não demorou muito para que as manifestações de revolta tomassem conta da internet, principalmente por parte dos mais religiosos que acharam um ato de desrespeito à fé. Não quero entrar no mérito da encenação, mas me inclinar a refletir sobre o comportamento explosivo dessas manifestações, que uniram a discussão político-religosa em diversas publicações.

 

      Não é por implicância, mas digo que muitas vezes a religião se perde no conceito de bem e mal, de deus e diabo, então por que não poderia se perder em alguns casos na defesa daquilo que julga ser o certo? Se eximirmos sempre da necessidade de compreendermos o conceito das coisas, jamais estabeleceremos um critério do que seja ou não necessário, do que seja ou não permitido, do que seja ou não proibido. Segundo dados da Receita Federal, de 2010 até 2017, foram abertas 67.951 entidades religiosas. É uma média de 1 igreja fundada a cada hora no Brasil. Uma diversidade de doutrinas, de usos e costumes, de códigos de condutas, e cada uma julga pregar a verdade e o que é o certo. Podem todas ser verdadeiras ao passo que são todas diferentes? Sim ou não? Qual possui a verdade? Pode uma ser mais ou menos verdadeira que outra? E mais: qual é a verdade que caracteriza a convicção intelectual (fé) de cada um?

 

      Outro ponto de conflito, é que no Brasil a lei dá proteção à liberdade religiosa, no entanto, por estímulo e conveniência de governantes, prestigia o Cristianismo em detrimento de todas as demais religiões. Até mesmo alguns religiosos tendem a se comportar desse modo: defendem sua religião e menosprezam a do outro. Já vi líder evangélico vilipendiar imagens de santos católicos, já vi num culto ridicularizarem o Templo de Umbanda, chamando-o de casa de Satanás, já vi espírita ser chamado de endemoninhado. Ou seja, o respeito à religiosidade só é uma verdade quando compartilha da mesma convicção?

 

      A livre interpretação religiosa e o desprezo ao conhecimento tem levado muita gente ao discurso irracional, à discórdia, à exclusão, e mais grave ainda, a um moralismo vazio que insiste em policiar o outro da sua maneira de ser e agir. (Entenda como “livre interpretação” a forma irresponsável de lhe dar com a interpretação). Por estas razões, muitos afirmam que não se discute religião e política. No entanto, precisamos subtrair esses embates e organizar o pensamento, de forma que o reflexo na sociedade seja o progresso e o respeito, para que todos se assegurem das suas liberdades e garantias individuais e saibam conviver em sociedade, formando um todo harmonioso de partes diferentes.

 

Thiago Augusto
Servidor Público Municipal